A gente se acostuma, mas não deveria...


Eu sei que a gente se acostuma,
mas não deveria.

A gente se acostuma
a morar em apartamentos de fundos
e não ver outra vista que não as janelas ao redor.
E, porque não tem vista,
logo se acostuma a acender mais cedo as luzes.
E, à medida que se acostuma,
esquece o Sol, esquece a amplidão.

A gente se acostuma
a esperar o dia inteiro e ouvir ao telefone:
"Não, hoje não posso ir".
A sorrir para as pessoas, sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado, quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma
a andar nas ruas e ver cartazes.
A ligar a televisão e assistir comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado.

A gente se acostuma
a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber,
a gente vai afastando uma dor aqui,
um ressentimento acolá.



Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana.
E, se no fim de semana não há muito o que fazer,
a gente vai dormir cedo,
e ainda fica satisfeito porque tem o sono atrasado.

A gente se acostuma
a não ralar na aspereza para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas e sangramentos.
Para esquivar-se da faca, para poupar o peito.

A gente se acostuma
para poupar a vida, que aos poucos se gasta,
de tanto se acostumar e se perde em si mesma.

Que em 2008 nós nos disponhamos a correr alguns riscos,
principalmente aqueles que, apesar das dores,
nos tornem maiores, mais competentes
e, acima de tudo, mais humanos.



Que aconteça assim!
Feliz 2008!




Texto de Marina Colasanti (atualizado).
Recebi de "Henrique José Castelo Branco" em 1999.





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Última alteração: 30 dez 2007