
Eu sei que a gente se acostuma,
mas não deveria.
A gente se acostuma
a morar em apartamentos de fundos
e não ver outra vista que não as janelas ao redor.
E, porque não tem vista,
logo se acostuma a acender mais cedo as luzes.
E, à medida que se acostuma,
esquece o Sol, esquece a amplidão.
A gente se acostuma
a esperar o dia inteiro e ouvir ao telefone:
"Não, hoje não posso ir".
A sorrir para as pessoas, sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado, quando precisa tanto ser visto.
A gente se acostuma
a andar nas ruas e ver cartazes.
A ligar a televisão e assistir comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado.
A gente se acostuma
a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber,
a gente vai afastando uma dor aqui,
um ressentimento acolá.

Que aconteça assim!
Feliz 2008!

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Texto de Marina Colasanti (atualizado).
Recebi de "Henrique José Castelo Branco" em 1999.

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Última alteração: 30 dez 2007