Feliz Natal

Feliz Natal
a quem não planta corvos nas janelas da alma,
nem embebe o coração de cicuta
e ousa sair pelas ruas a transpirar bom-humor.

Feliz Natal
a quem cultiva ninhos de pássaros no beiral da utopia
e coleciona no espírito as aquarelas do arco-íris.
E a todos que trafegam pelas vias interiores
e não temem as curvas abissais da oração.

Feliz Natal
aos que reverenciam o silêncio como matéria-prima do amor
e arrancam das cordas da dor melódicas esperanças.
Também aos que se recostam em leitos de hortências
e bordam, com os delicados fios dos sentimentos,
alfombras de ternura.


Feliz Natal
a todos que dançam embalados pelos próprios sonhos
e nunca dizem sim às artimanhas do desejo.
Aos que ignoram o alfabeto da vingança
e jamais pisam na armadilha do desamor,
pois sabem que o ódio destrói primeiro a quem odeia.

Feliz Natal
a quem acorda, todas as manhãs,
a criança adormecida em si e,
moleque, sai pelas esquinas quebrando convenções
que só obrigam a quem carece de convicções.
E aos artífices da alegria que, no calor da dúvida,
dão linha à manivela da fé.

Feliz Natal
a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas
a fim de atirá-los no lixo do olvido e guardam,
recatados, os seus olhos no recanto da sobriedade.
A quem resguarda-se em câmaras secretas
para reaprender a gostar de si
e, diante do espelho,
descobre-se belo na face do próximo...

Feliz 2008!





Texto de Frei Betto. Recebi de "Maux" em 2001.






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Última alteração: 30 dez 2007